sábado, 26 de maio de 2012

POEMA (Recitado por mim - clique no Play) - Piada de mau gosto



Eu entro no banheiro em que as
portas dos mictórios estampam o cara
do momento só de cuecas.

Dentro deste mesmo banheiro, pego
em curso o diálogo de dois homens:

sujeito A: ... nada a ver! Ter de dar de cara
com este cara aí de cuecas pô!
sujeito B: Deixa o cara seu invejoso!
Só porque ele ganha 3 milhão e tu
porra nenhuma?...


Eu saio dali: já fiz o que tinha
de fazer...

A vida é uma piada de mau gosto
assim como o trânsito desta cidade.
(Imbecis teimam com o engodo
"sustentabilidade"...)

Eu já saí do banheiro a alguns minutos:
Tudo é uma piada de mau gosto,
Incluso as mulheres maquiadas, gostosas,
frívolas e sem estrias
que trafegam neste shopping às 19 e tantas
de um início de noite.

É tudo uma piada de mau gosto...
O trompete do falecido Miles
é trilha sonora disso
somente para mim.

São José, 24 de maio de 2012
Cleber C Maranhão

sábado, 19 de maio de 2012

POEMA - Meio dia e pouco (homenagem a Ismael Rivera)

Meio dia e pouco!
O sol brilhando no exato da cara...
Eu jogo a maçã para cima,
Eu miro o cachorro que late,
Eu ouço Rivera cantar
Moti-agua:
Me acho mais latino do que
Nunca!

Mulheres passam,
O bebum passa,
Bem como o catador de papelão...

O sol queima minha pele
No hemisfério sul do mundo:
O Balanço de Rivera
Me faz morder a maçã!

São José, 17 de maio de 2012
Cleber C Maranhão

sexta-feira, 11 de maio de 2012

POEMA (Recitado por mim) - Ela tem um nome a zelar



Ela tem um nome a zelar,
E eu, jogado no mundo
vagabundo em espírito:
Todos sabem que sou
Pura malícia!!!

Ela tem um nome a zelar,
Porém, o gestual dela entrega
Que ela não quer zelá-lo:
Ela disfarça mal,
O que é impressionante
Para uma mulher...

Talvez porque ela seja
Toda sexo:
Os cabelos, os olhos, o nariz,
a pele, as jóias,
o corpo todo dela berra!,
para quem quiser ouvir,
esta vontade imensa de
Cópula!!!

Ela tem um nome a zelar,
Porém,
Não foi iniciada na arte
Sagrada da dissimulação...
Talvez por ser autêntica
Na expressão daquilo que corre
Embaixo de seu couro:
A razão (dissimulada por natureza)
Não lhe é desenvolvida.

E no fim,
Ela me faz dar risadas,
Me faz gargalhar:
Meu olhar nada dissimulado,
direto a ela,
É meu gostoso gargalhar.

Florianópolis, 19 de abril de 2012
Cleber C. Maranhão

domingo, 6 de maio de 2012

Pelé e Neymar: declaração IMPACTANTE de meu pai!

Declaração IMPACTANTE de meu pai (setenta e poucos anos) que viu Pelé jogar:
"O Neymar é impressionante, pois, domina todos os fundamentos e não é mais um jogador que só dribla: assim como o Pelé, ele bate com as duas, cabeceia, tem bom passe, lança e - o mais importante - faz muitos gols. Enfim, completo tal e qual Pelé. O ponto, é que Pelé dependia muito de seus companheiros de time (santos) dependência esta que não é vital em Neymar e, Pelé não era um driblador como Neymar. Logo, NEYMAR, INDIVIDUALMENTE, É MELHOR QUE PELÉ!!!"

sábado, 5 de maio de 2012

Reflexões sobre cotas raciais II - Conto "O preto fantástico!"

No fim do ano passado, lancei, no formato e-book (para o download, click aqui) a minha segunda coletânea de contos intitulada O preto fantástico! e outras ficções. O conto que abre a coletânea é justamente aquele que faz parte do título desta, ou seja, o conto O preto fantástico.

Mais do que divulgar a coletânea, acredito que este conto (TRATA-SE DE UM CONTO, DE UMA FICÇÃO! NÃO SE TRATA DE UMA OPNIÃO OU PENSAMENTO! AS MINHAS CONSIDERAÇÕES PESSOAIS SOBRE COTAS ESTÃO NO POST ANTERIOR A ESTE) é um ilustrativo possível da realidade, das questões do dia a dia, acerca desta epinhoso - por demais! - tema.

Leiam, portanto, o conto e, se por acaso surgir a curiosidade de conferir as outras estórias que compõem esta coletânea, faça o download.


O preto fantástico!
Olhou-se no espelho e viu a vantagem de ser; de se enquadrar no fenótipo de. Ironia! Durante séculos isto jamais seria imaginado, ou numa escala maior, cogitado. Nem mesmo os detentores da característica, no Brasil, sejam eles de qual estirpe fossem, poderiam ousar! Mirava-se no espelho e via uma vantagem concreta, real, instituída e estatuída. Estava um pouco barrigudo, braços flácidos, porém, jovem e com um imenso tesouro em seu corpo. E ele estava disposto a utilizar esta vantagem para o fim que lhe convinha; fá-lo-ia, sem dó e nem piedade; sem remorsos ou pesares de uma mente que esbarra em um o que será que eles vão pensar? Até mesmo porque, antes de tudo, ele era filho daquela contemporaneidade pragmático-ocidental. Antes de ser aquilo que se via no espelho, ele era mais um regido pelos humores do Mercado, pela cafajestagem e chantageamento do tal Mercado de Trabalho; pelos prazeres proporcionados pela tecnologia e pela química: ambos, entorpecem e sedam os sentidos.
Ele se enquadra, ele usa!
Vamos dar nome aos objetos; vamos colocá-los, dar formas, classificá-los: que deixemos de lado o discurso que fala nas entrelinhas, em tons poéticos e verborrágicos: aquele que se olha no espelho é um jovem negro (um preto), e a tal lei, resolução, medida que lhe dava a vantagem, era uma das políticas de ações afirmativas, criada no governo do presidente senhor fulano de tal; mais precisamente, a vantagem tem nome e, seu nome é cotas raciais para o ingresso nas universidades públicas!!!
Milhares de tantos beneficiados. Gente que antes povoava o imaginário acadêmico, por agora, presente em massa considerável no campus, porém, uma massa que caminha, certo modo, cabisbaixa, envergonhada do ingresso. O possível e provável questionamento do não-negro, ou seja, daquele que ingressa pela maneira universal, sem a vantagem, deixa o negro (aquele que se enquadra nos pré-requisitos determinados pelo sistema de cotas) diante de um abismo imenso da vergonha frente a possibilidade de sair de sua boca a resposta eu sou cotista!: alguns desconversam, outros mentem, poucos fazem que não ouvem... porém, o questionador não-negro, malicioso, sabe quem é quem: ele não é insensível e sabe verificar quem é negro – a vergonha do negro fala, grita, desnuda-se! Sobe no alto de uma colina e discursa que se trata de um cotista. Que se trata de um fardo que carrega na pele, que caminha por ali – no campus – por conta daquele fardo, tão e somente, mas que jamais admitirá o fardo!
Ele, que já não está mais diante do espelho mirando-se e sim, caminhando vivaz na concretização do passado, ao contrário da grande maioria dos outros negros, é audaz: sempre que questionado responde que “sim!”, pois, tratava-se de uma vantagem que lhe convinha e que não estava nem aí se certo ou errado era. Como certa vez disse, em conversa de bar, enquanto acariciava os cabelos loiros de uma desejadíssima do curso:
Já que sou preto e me enquadro no programa, nem pensei! Cotas meu querido! Co-tas!”

A platéia de novos colegas agora o conhecia! Ele era uma ilha paradisíaca repleta de fauna ilógica para a imaginação corrente, fazendo o não-negro – que se matou a estudar para o ingresso no concorrido curso em questão – pensar:
Mas que filho da puta!”

E ele dava risada, bebia, matava aulas, desafiava professores, transava com a loira recém saída do ensino médio... enfim, ele fluía! Ele estava feliz! Seu índice de aproveitamento, tanto em frequência quanto em notas, era pífio! Ele era pontos negativos à tentativa da reparação histórica do governo do presidente. Ele era a estatística negativa do programa. Ele agora era universitário e orgulhava-se disso!
Um tema polêmico, uma medida controversa, que gerou uma série de debates tanto no campus, quanto fora dele; fora dele, a dramaticidade era maior: uma série de ações judiciais de não-negros, pelo fato de terem suas vagas roubadas por negros. Em um cursinho pré-vestibular da cidade, ouve-se uma moça dizer:
Ano passado prestei vestibular e fiz os pontos necessários, porém, não entrei! Tudo por causa
desta merda de cotas!”

Na outra extremidade, deste mesmo cursinho, uma negra, aspirante à intelectual engajada, discursava a um grupo de pessoas:
Mais de 300 anos de exploração, criou na mente do negro, uma grande trava psíquica que tende-nos
à baixa auto-estima quando, a dura penas, encaramos esta sociedade! Esta medida é mais do
que necessária a fim de que, num futuro breve, não seja mais necessária, pois, o negro estará
plenamente inserido em todas as áreas da...”

Um outro negro, já veterano naquela universidade e sem itálico, pois, não ingressou pelo sistema de cotas – em sua época era só especulação – esperou dele (nosso herói aqui retratado) um posicionamento político-histórico embasado da questão do porquê de escolher o ingresso pelo sistema e não pelas vias normais... quis saber! Desejava um posicionamento consciencioso da situação. Minutos depois, teve a decepção: teve dele um show de “sei lá!”, de “porque era mais fácil pra entrá”, de “não conheço a história negra”, de “tô aqui pelo canudo!” e uma série de outras colocações que, como faca, feriram este questionador negro: um negro negro ferindo um negro!
Não se espera um pragmatismo e indiferença por parte de um tipo como ele! Geralmente, o pragmatismo e indiferença fria estão em outros tipos, mas, nele, inimaginável! Isto não está certo! Pois se acaso um contrário gritasse em raiva que “essas políticas assistencialistas são esmolas destinada a incapazes”, este contrariado, teria como resposta dele, ao invés de uma contra-argumentação elegante e eloqüente, o seguinte:
Ok! Então eu sou um incapaz! Agora, dê-me a esmola e não me encha o saco, pois, eu preciso
dela!”

E ele não responderia assim para mostrar ironia intelectual ou qualquer outra coisa... não. Ele responderia assim dentro de uma franqueza muito clara de espírito: “se está aí, se me beneficia, vô usá e deu!”. Esperar dele o significado? A importância vindoura? Ontologias que esta medida faz nascer? O ético? A Justiça? Ahmm?!?!?
A galega solta de um carro, às 23 e tantas da noite, de uma segunda-feira, tentando ajustar a saia em sua posição inicial. Recebe um telefonema que questiona onde ela esteve. Ela responde:

Estava com o preto... o preto fantástico!”

Florianópolis, 05 de junho de 2010.
Cleber C. Maranhão


OBS: Imagem do taz tirada de http://1papacaio.com.br/modules/Cliparts/gallery/cliparts_cartoons/cliparts_looney/taz/taz_pensando.gif

sábado, 28 de abril de 2012

Reflexões sobre cotas raciais


Este aí ao lado sou eu. Eu ODEIO expor minha imagem, porém, para o propósito do texto, acredito que seja relevante. 

Enquadro-me no fenótipo que faz com que eu seja classificado de negro (ou negróide). E mais do que a questão fenotípica, sou negro sobretudo pelo fato da sociedade enxergar-me como tal, ou seja, há um conceito de negro existente no imaginário coletivo – naquele banco de conceitos que paira sobre a cabeça de todos em uma sociedade e que, inevitavelmente, são formadores das falas e pensamentos de grande parte das subjetividades; quando um dado indivíduo qualquer profere um juízo de valor (p.e., “eu não gosto disso”, ou “eu gosto daquilo”) ainda que se possa arrogar ser este juízo subjetivo, há, inevitavelmente, uma interferência deste banco de conceitos pré-estabelecidos muito antes da concepção deste dado indivíduo: discursos cristalizados que estão no – conceito batido! - inconsciente coletivo; se não coletivo, pelo menos, em grande parte das pessoas. Eu penso sobre a realidade Brasileira.

O pré-conceito, a pré-formulação de algo, é uma operação inevitável da mente. E ainda bem que existe esta condição no humano que, certamente, associada as outras tantas características que marcam nossa espécie, permitiram o domínio (ou pelo menos, a sensação de domínio) sobre as demais espécies que habitam este planeta. Portanto, os conceitos, após muitas tentativas e erros, são formados e, seguindo um processo natural, cristalizados, tomando um caráter de verdade, ou, se acaso não de verdade absoluta, pelo menos de plausibilidade.

Quando deparo-me com algo que desconheço, antes do olhar consciente, olhar este preocupado em investigar aquilo que se me apresenta desconhecido (olhar consciente este, infelizmente, presente em uma parcela muito pequena de pessoas) pré-conceitos surgem, com a força de uma tsunami numa reação, digamos, instintiva: pré-conceitos assolam a mente e encobrem a possibilidade de investigação. Tal a e qual a inevitável excitação que uma mulher estonteante provoca no espírito de um que goste de mulheres - há a visão desta beldade, a excitação que é instintiva e instantânea e, somente após tudo isto – se estivermos falando de um homem privilegiado – o olhar consciente, ou seja, a tomada de consciência de tudo o que lhe ocorreu, ocorrência esta surgida de um subconsciente misterioso, de maneira incontrolável, pois, como nos elucida Schopenhauer, a todo momento, o querer, os desejos, os impulsos, são sempre antes de qualquer tentativa de entendimento.

De certo, quando, p.e., deparo com um objeto marrom, com aberturas em sua extremidades sendo que, minha visão está meio turva, pela distância que me encontro deste objeto, sem que eu (considero este eu como algo que tem a capacidade de realizar um olhar consciente) queira, pré-conceitos surgem em minha mente: “que estranho!?”, ou “parece um bicho”, ou, “é um monstro!”. Qual o conceito que paira e que atravessa minha mente, sem eu querer, quando deparo-me com este objeto? O conceito do disforme, em uma sociedade que prima pela forma, pois, tais pré-julgamentos surgem em minha psique por um conceito instituído, muito antes de meu nascimento, que versa: “se por acaso, algo se apresentar a ti destituído de formas delineadas e regulares, terás um disforme e, o disforme, pelo fato fato de não respeitar a forma, se enquadra no estranho e no bizarro”. Para minha surpresa, porém, quando em uma tomada de consciência abro-me à investigação, deixando de lado esses pré-conceitos que inevitavelmente vem, percebo que se trata de uma bolsa.

Quando cruzo com um homem vestido todo de branco, sendo que, este evento se dá nas imediações de um hospital, pré-conceito dizendo que “é um médico ou enfermeiro” surge. Quando deparo-me com um homem de traços bonitos, muito bem vestido de terno e gravata, sendo que, é perceptível que não se trata de qualquer terno e de qualquer sapato, pré-conceitos, novamente, assolam-me dizendo que “muito provavelmente, se trata de um homem bem sucedido financeiramente”. E é assim, portanto, que operamos cotidianamente: a formulação dos pré-conceitos é um fato de nossa constituição psíquica que opera pautado em conceitos vigentes em uma dada sociedade. Se eu vejo uma mulher parada em um ponto de ônibus, às 01:30h de uma segunda-feira, sendo que temos, neste cenário hipotético, como temperatura ambiente 10°C e esta moça está de micro-saia expondo suas sensacionais coxas e, sendo que na parte superior do corpo veste um curtíssimo casaco de pele para se proteger do frio, se me deparo com esta cena, o pré-conceito “uma garota de programa” surge. Porém, e se ela for uma psicóloga bem sucedida que acaba de sair de uma festa e que está a espera da condução para retornar ao lar? Mesmo assim, não devo martirizar-me, pois, os pré-conceitos são, reiterando, um fato constitutivo de nossa espécie.

Pois bem! Se os pré-conceitos são construídos de acordo com conceitos vigentes em uma sociedade, cabe a pergunta (para voltarmos ao propósito do texto): qual é o conceito do negro? Por favor... sem a hipocrisia (e reparem que quem escreve este texto é um que se enquadra no fenótipo de) sem o medo de colocar as palavras afiadas cortantes... Qual é o conceito do negro em nossa sociedade, ainda que muitos arroguem que, pelo fato de estarmos no século XXI e das “conquistas” históricas alcançadas (até que ponto a abolição foi uma conquista ou uma pressão do novo modelo econômico que crescia?) avanços nesta conturbada questão? E mais sintomático ainda: Qual é o conceito do índio em nossa sociedade? Meu grande amigo Matheus (detentor do blog David MM) relatou-me o seguinte fato: um conhecido seu, oriundo de uma comunidade indígena (portanto, com os traços “puros”, ou seja, que marcam bem a sua condição de descendente direto dos seres humanos convencionados indígenas) quando em nossa cidade, exercendo o cargo de empacotador em um supermercado, foi surpreendido com a afirmação de uma cliente a um operador de caixa próximo: “O que um índio faz em um supermercado? Lugar de índio não aqui!”. Uma colocação, a priori, condenável, cabível até de processo por danos morais, ou por racismo... Mas, a "culpa" por esta afirmação é desta cliente, ou, antes de mais nada, a culpa seria do conceito formado acerca do índio em nossa sociedade que atravessa as subjetividades, influenciado nos instintivos pré-conceitos que, naturalmente, formamos?

Quem é o negro? O conceito negro, em nosso sociedade, abarca uma série de definições possíveis, como as que seguem: samba, futebol, bem dotado, ginga, alegria, desleixo, ritmo, criatividade para as artes, habilidades esportivas, desinteresse intelectual, sensualidade, contravenção, crime, malandragem, e alguns outros vocábulos que perambulam em sentido similar a estes colocados. Portanto, num encontro de um homem que não se enquadra no fenótipo de negro com um outro que se enquadra, no processo natural e automático – já explicado aqui – dos pré-conceitos, o não-negro formula pré-conceitos acerca do negro que se lhe apresenta. Se acaso, no momento posterior, houver uma aproximação (uma conversa) entre ambos, tais pré-conceitos podem ser ratificados ou não, porém, os pré-conceitos assolam - reiterando – a mente do não-negro quando este se confronta com o negro pela primeira vez.

E o contrário também é verdadeiro, ou seja, pela fato de ser humano e de estar dentro desta mesma sociedade, o negro formula neste confronto, pré-conceitos automáticos acerca do não-negro que o mira. Tal jogo, determina, portanto, o comportamento de ambos, tanto para si (no modo como se vêem a si próprios no mundo) tanto para com o outro, pois, a maioria das pessoas preferem os pré-conceitos (formados por conceitos já dados em uma sociedade) a ter de investigar cada fato cotidiano que se lhes apresenta - pois, trata-se de algo mais cômodo, menos trabalhoso, lidar com o já pronto do que ter que construir algo e, é sabido que investigar é construir. Logo, aquele movimento ideal (visão de um objeto – pré-conceitos surgidos inevitavelmente – suspensão do juízo anteriormente formado para investigação) se porventura praxe fosse, teríamos uma sociedade em que as rotulações, generalizações, esteriótipos seriam muito menos frequentes, ou, se não fossem, seriam com uma precisão tremenda, pautadas em dados concretos, pois, ainda que um indivíduo realizasse um pré-juízo de outrem, antes de ratificar este pré-juízo, ele iria verificar. Mas, sabemos que não funciona assim e, levando em consideração a malícia, a dissimulação – condições também constitutivas do humano – teríamos (como já temos) sérios problemas. Sem falar na perda de tempo: toda nossa movimentação por sobre esta terra, pauta-se em pré-conceitos que temos; suspendê-los a toda momento nos empacaria.

Certo. E onde entra a questão das cotas raciais nas universidade públicas em toda esta digressão feita até aqui? As reflexões de Paulo Ghiraldelli Jr. acerca do tema e minha vivência dentro desta sociedade enquanto negro, foram decisivas para que eu pudesse chegar a este ponto de considerar a política de cotas raciais nas universidades públicas (e eu tenho um pensamento acerca dos movimentos que pleiteiam cotas raciais em outros âmbitos da sociedade, como as artes, por exemplo, mas, não é o momento de expô-lo aqui; em um futuro breve farei)  primordiais no contexto brasileiro.

Partindo do ponto já colocado aqui, ou seja, o banco de conceitos cristalizados que incidem nas subjetividades, dentro de nossa sociedade, influenciando diretamente nas falas, nos pensamentos e ações, partindo deste ponto, é que a reflexão de Ghiraldelli é importante, pois, ela traz à tona a ideia do ver e do esbarrar-se. Ambas ideias, relacionadas com a espacialidade, pois, o conceito formado do negro, do índio, do cabloco, do mameluco, do branco, do imigrante oriental, passa não só pelos aspectos fisio-biológicos ou sócio-culturais, mas, sobretudo, pelo espaço territorial - público ou privado - que estas categorias devem ocupar. Sendo que este "devem" é convenção histórica oficial, ou não oficial. Se acaso uma dessas categorias estiverem fora do espaço que convencionou-se, ao longo dos anos, determinar como seus, para aquele que não for dado à investigação (ou seja, para aquele que pauta-se exclusivamente nos pré-conceitos, como já explicado em parágrafos anteriores) à suspensão dos pré-juízos surgidos inevitavelmente, grande horror e estranhamento advirão e, a exclamação – surgida na mente e externalizada na boca - “mas como!?!?”advirá e, reiterando, não por culpa desta subjetividade (na verdade tudo isto não é uma questão de culpa – trata-se apenas de um fato) mas sim, pelo modo como os conceitos foram construídos, mostrando o quão cristalizados eles estão ainda. As cotas raciais são importantes e necessárias para prover a quebra de conceitos fortes, cristalizados, que formam os pré-conceitos inevitáveis; são importantes para que novos conceitos favoráveis acerca das ditas “minorias” sejam criados, cristalizados, permeando portanto o processo de pré-conceituação das futuras gerações. E este é o ponto: trata-se de uma medida que visa as futuras gerações, talvez uma ação que venha surtir efeito dentro de 50 ou 60 anos. Para que quando um não-negro encontre um negro, ou um indígena, dentro de seu processo de pré-conceitualização hajam as seguintes possibilidades: “ele parece ser um médico”, ou “ele parece ser um engenheiro”, ou “ele tem pinta de ser um advogado”, bem como as negativas, que também ocorrem, não só do branco para o negro, mas também, do negro para o branco. E as cotas (que obviamente devem ser de caráter temporário, isto está claro) visam colocar, literalmente, o negro, o indígena ou o pardo, em locais onde, geralmente, ele não se encontra. Visa proporcionar ao não-negro o esbarrar-se com este tipo que ele somente se deparava via TV ou jornais, propiciando assim uma convivência que prime por aquilo que ambos tem em comum: a humanidade.

O princípio da isonomia (principal argumentação daqueles que são contra as cotas raciais) infelizmente, ainda que constitucional, é fraquíssimo diante esta realidade metafísica dos conceitos que influem decisivamente nas pré-conceitualizações e, sobretudo, no modo como os estigmatizados se vêem no mundo. Sobre este último quesito, tamanho é o estigma em cima do negro que muitos – que se enquadram neste fenótipo – vestem a pesada roupa de chumbo dos conceitos atribuídos a eles. Tais conceitos dizem ao negro que “aqui você pode, porém, ali você não pode!” ou “aqui é o seu lugar, porém, ali não o seu lugar”. E como se faz para se despir de tais conceitos? Somente os que dispõem de uma clarividência muito grande para entender que, no fundo, tudo é vazio e moldável, porém, isto é uma outra conversa e um atributo para poucos. Portanto, levando em consideração que a maioria das pessoas abraçam os estigmas, querer dizer que as minorias não estão nas universidades pelo fato de não quererem é um engodo, pois, há esta trava psíquica imposta pelos conceitos existentes que fazem o negro sentir-se confortável em um dado local e desconfortável em um outro. Donde vem este desconforto? Dos olhares pré-conceituosos que, nas entrelinhas perguntam ao negro graduando em filosofia (por exemplo), de maneira silenciosa, “o que é que você está fazendo aqui?”. Se este negro é altivo, seguro de si (atributos que, infelizmente, não se compram em supermercado) tais olhares, a ele, nem existem. Mas, se porventura, trata-se de um negro que abraçou os conceitos vigentes em sua sociedade acerca de sua raça, ah!, que labor martirizante será sua estada nos locais e posições sociais onde, historicamente, a ele, sempre foram designados como não seus.

Inauguro com este texto, algo que há muito já estava para fazer, ou seja, reflexões sobre a condição do negro sob minha ótica, obviamente. Dedico este texto a meu amigo e parceiro de boas e densas reflexões Matheus, detentor do blog David MM.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

POEMA (Recitado por mim) - C14



Sou paleontólogo e desejo,
Ardentemente,
Saber de quando data
Essa tua saia!

C14:
Me dará a resposta
Que persigo.

E para meu espanto,
O dispositivo de cálculo entra em pane...
A idade de tua saia
É a idade de Deus.

A tua saia é infinita em anos.
Muito antes de meu nascimento,
Ela já excitava.

C14 dessa saia
Que realça tua graça!

A tua carne ficará fraca
E a tua pele flácida,
Porém,
C14 dessa saia:
É nele que reside mulher,
O ativador de minha
Tara!

São José, 30 de março de 2012
Cleber C Maranhão