
Este aí ao lado sou
eu. Eu
ODEIO expor minha imagem, porém, para o propósito do texto, acredito que seja relevante.
Enquadro-me no fenótipo que faz com que eu seja classificado de
negro (ou negróide). E mais
do que a questão fenotípica, sou negro
sobretudo pelo fato da sociedade enxergar-me como tal, ou seja, há
um conceito de negro
existente no imaginário coletivo – naquele banco de conceitos que paira
sobre a cabeça de todos em uma
sociedade e que, inevitavelmente, são formadores das falas e
pensamentos de grande parte das subjetividades; quando um dado
indivíduo qualquer profere um juízo de valor (p.e.,
“eu não gosto disso”, ou “eu gosto daquilo”) ainda que se
possa arrogar ser este juízo subjetivo, há, inevitavelmente, uma
interferência deste banco de conceitos pré-estabelecidos muito antes da concepção deste
dado indivíduo: discursos
cristalizados que estão no – conceito batido! - inconsciente
coletivo; se não coletivo, pelo
menos, em grande parte das pessoas. Eu penso sobre a realidade
Brasileira.
O
pré-conceito, a
pré-formulação de
algo, é uma operação inevitável da mente. E ainda bem que existe
esta condição no humano que, certamente, associada as outras tantas
características que marcam nossa espécie, permitiram o domínio (ou
pelo menos, a sensação de domínio)
sobre as demais espécies que habitam este planeta. Portanto, os
conceitos, após muitas tentativas e erros, são formados e, seguindo
um processo natural, cristalizados, tomando um caráter de verdade,
ou, se acaso não de verdade absoluta, pelo menos de plausibilidade.
Quando
deparo-me com algo que desconheço, antes do olhar
consciente, olhar este
preocupado em investigar aquilo que se me apresenta desconhecido
(olhar consciente este,
infelizmente, presente em uma parcela muito pequena de pessoas)
pré-conceitos surgem,
com a força de uma tsunami numa reação, digamos, instintiva:
pré-conceitos assolam
a mente e encobrem a possibilidade de investigação. Tal a e qual a
inevitável excitação que uma mulher estonteante provoca no
espírito de um que goste de mulheres - há a visão desta beldade,
a excitação que é instintiva e instantânea e, somente após tudo
isto – se estivermos falando de um homem privilegiado – o olhar
consciente, ou seja, a tomada de
consciência de tudo o que lhe ocorreu, ocorrência esta surgida de
um subconsciente misterioso, de maneira incontrolável, pois, como
nos elucida Schopenhauer, a todo momento, o querer, os
desejos, os impulsos, são sempre antes de
qualquer tentativa de entendimento.
De
certo, quando, p.e., deparo com um objeto marrom, com aberturas em
sua extremidades sendo que, minha visão está meio turva,
pela distância que me encontro deste objeto, sem que eu
(considero este eu como
algo que tem a capacidade de realizar um olhar consciente)
queira, pré-conceitos surgem
em minha mente: “que estranho!?”, ou “parece um bicho”, ou,
“é um monstro!”. Qual o conceito que paira e que atravessa
minha mente, sem eu querer, quando deparo-me com este objeto? O
conceito do disforme,
em uma sociedade que prima pela forma, pois, tais pré-julgamentos
surgem em minha psique por um conceito instituído, muito antes de
meu nascimento, que versa: “se por acaso, algo se apresentar a ti
destituído de formas delineadas e regulares, terás um disforme e, o
disforme, pelo fato fato de não respeitar a forma, se enquadra no
estranho e no bizarro”. Para minha surpresa, porém, quando em uma
tomada de consciência abro-me à investigação, deixando de lado
esses pré-conceitos que
inevitavelmente vem, percebo que se trata de uma bolsa.
Quando
cruzo com um homem vestido todo de branco, sendo que, este evento se
dá nas imediações de um hospital, pré-conceito
dizendo que “é um médico ou enfermeiro” surge. Quando deparo-me
com um homem de traços bonitos, muito bem vestido de terno e
gravata, sendo que, é perceptível que não se trata de qualquer
terno e de qualquer sapato, pré-conceitos,
novamente, assolam-me dizendo que “muito provavelmente, se trata de
um homem bem sucedido financeiramente”. E é assim, portanto, que
operamos cotidianamente: a formulação dos pré-conceitos
é um fato de nossa constituição psíquica que opera pautado em
conceitos vigentes em uma dada sociedade. Se
eu vejo uma mulher parada em um ponto de ônibus, às 01:30h de uma
segunda-feira, sendo que temos, neste cenário hipotético, como
temperatura ambiente 10°C e esta moça está de micro-saia expondo
suas sensacionais coxas e, sendo que na parte superior do corpo veste
um curtíssimo casaco de pele para se proteger do frio, se me deparo
com esta cena, o pré-conceito “uma garota de programa” surge.
Porém, e se ela for uma psicóloga bem sucedida que acaba de sair de
uma festa e que está a espera da condução para retornar ao lar?
Mesmo assim, não devo martirizar-me, pois, os pré-conceitos são,
reiterando, um fato constitutivo de nossa espécie.
Pois
bem! Se os pré-conceitos são construídos de acordo com conceitos
vigentes em uma sociedade, cabe a pergunta (para voltarmos ao
propósito do texto): qual é o conceito do negro? Por favor... sem a
hipocrisia (e reparem que quem escreve este texto é um que se
enquadra no fenótipo de) sem o medo de colocar as palavras afiadas
cortantes... Qual é o conceito do negro em nossa sociedade, ainda
que muitos arroguem que, pelo fato de estarmos no século XXI e das
“conquistas” históricas alcançadas (até que ponto a
abolição
foi uma conquista ou uma pressão do novo modelo econômico que
crescia?) avanços nesta conturbada questão? E mais sintomático
ainda: Qual é o conceito do
índio
em nossa sociedade? Meu grande amigo Matheus (detentor do blog
David MM)
relatou-me o seguinte fato: um conhecido seu, oriundo de uma
comunidade indígena (portanto, com os traços “puros”, ou seja,
que marcam bem a sua condição de descendente direto dos seres
humanos convencionados
indígenas)
quando em nossa cidade, exercendo o cargo de empacotador em um
supermercado, foi surpreendido com a afirmação de uma cliente a um
operador de caixa próximo: “O que um índio faz em um
supermercado? Lugar de índio não aqui!”. Uma colocação, a
priori, condenável, cabível até de processo por danos morais, ou por
racismo... Mas, a "culpa" por esta afirmação é desta cliente, ou,
antes de mais nada, a culpa seria do conceito formado acerca do índio
em nossa sociedade que atravessa as subjetividades, influenciado nos
instintivos pré-conceitos que, naturalmente, formamos?
Quem
é o negro? O conceito negro,
em nosso sociedade, abarca uma série de definições possíveis,
como as que seguem: samba, futebol, bem dotado, ginga,
alegria, desleixo, ritmo, criatividade para as artes, habilidades
esportivas, desinteresse intelectual, sensualidade, contravenção,
crime, malandragem, e alguns
outros vocábulos que perambulam em sentido similar a estes
colocados. Portanto, num encontro de um homem que não se enquadra no
fenótipo de negro com um outro que se enquadra, no processo natural
e automático – já explicado aqui – dos pré-conceitos, o
não-negro formula
pré-conceitos acerca do negro que
se lhe apresenta. Se acaso, no momento posterior, houver uma
aproximação (uma conversa) entre ambos, tais pré-conceitos podem
ser ratificados ou não, porém, os pré-conceitos assolam -
reiterando – a mente do não-negro quando
este se confronta com o negro pela
primeira vez.
E
o contrário também é verdadeiro, ou seja, pela fato de ser humano
e de estar dentro desta mesma sociedade, o negro formula neste
confronto, pré-conceitos automáticos acerca do não-negro que o
mira. Tal jogo, determina, portanto, o comportamento de ambos, tanto
para si (no modo como se vêem a si próprios no mundo) tanto para com
o outro, pois, a maioria das pessoas preferem os pré-conceitos
(formados por conceitos já dados em uma sociedade) a ter de
investigar cada fato cotidiano que se lhes apresenta - pois, trata-se
de algo mais cômodo, menos trabalhoso, lidar com o já pronto do que
ter que construir algo e, é sabido que investigar é construir.
Logo, aquele movimento ideal (visão
de um objeto – pré-conceitos surgidos inevitavelmente –
suspensão do juízo anteriormente formado para investigação) se
porventura praxe fosse, teríamos uma sociedade em que as rotulações,
generalizações, esteriótipos seriam muito menos frequentes, ou, se não fossem, seriam com uma precisão tremenda, pautadas em dados
concretos, pois, ainda que um indivíduo realizasse um pré-juízo de
outrem, antes de ratificar este pré-juízo, ele iria verificar. Mas,
sabemos que não funciona assim e, levando em consideração a
malícia, a
dissimulação –
condições também constitutivas do humano – teríamos (como já
temos) sérios problemas. Sem falar na perda de tempo: toda nossa
movimentação por sobre esta terra, pauta-se em pré-conceitos que
temos; suspendê-los a toda momento nos empacaria.
Certo. E onde entra a questão das cotas raciais nas universidade públicas em toda esta
digressão feita até aqui?
As reflexões de Paulo Ghiraldelli Jr.
acerca do tema e minha vivência dentro desta sociedade enquanto
negro, foram decisivas
para que eu pudesse chegar a este ponto de considerar a política de
cotas raciais nas universidades públicas (e eu tenho um pensamento acerca dos movimentos que pleiteiam cotas raciais em outros âmbitos da sociedade, como as artes, por exemplo, mas, não é o momento de expô-lo aqui; em um futuro breve farei) primordiais no contexto brasileiro.
Partindo
do ponto já colocado aqui, ou seja, o banco de conceitos
cristalizados que incidem nas
subjetividades, dentro de nossa sociedade, influenciando diretamente
nas falas, nos pensamentos e ações, partindo deste ponto, é que a
reflexão de Ghiraldelli é importante, pois, ela traz à tona a
ideia do ver e do
esbarrar-se. Ambas
ideias, relacionadas com a espacialidade,
pois, o conceito formado do negro, do índio, do cabloco, do
mameluco, do branco, do imigrante oriental, passa não só pelos
aspectos fisio-biológicos ou sócio-culturais, mas, sobretudo, pelo
espaço territorial - público ou privado - que estas
categorias devem ocupar. Sendo que este "devem" é convenção histórica oficial, ou não oficial. Se
acaso uma dessas categorias estiverem fora do espaço que
convencionou-se,
ao longo dos anos, determinar como seus,
para aquele que não for dado à investigação (ou seja, para aquele
que pauta-se exclusivamente nos pré-conceitos, como já explicado em
parágrafos anteriores) à suspensão dos pré-juízos surgidos
inevitavelmente, grande horror e estranhamento advirão e, a
exclamação – surgida na mente e externalizada na boca - “mas
como!?!?”advirá
e, reiterando, não por culpa desta subjetividade (na verdade tudo
isto não é uma questão de culpa – trata-se apenas de um fato)
mas sim, pelo modo como os conceitos foram construídos, mostrando o
quão cristalizados eles estão ainda. As cotas raciais são
importantes e necessárias para
prover a quebra de conceitos fortes, cristalizados, que formam os
pré-conceitos inevitáveis; são importantes para que novos
conceitos favoráveis acerca das ditas “minorias” sejam criados,
cristalizados, permeando portanto o processo de pré-conceituação
das futuras gerações.
E este é o ponto: trata-se de uma medida que visa as futuras
gerações, talvez uma ação que venha surtir efeito dentro de 50
ou 60 anos. Para que quando um não-negro
encontre
um negro, ou um
indígena,
dentro de seu processo de pré-conceitualização hajam as seguintes
possibilidades: “ele parece ser um médico”, ou “ele parece
ser um engenheiro”, ou “ele tem pinta de ser um advogado”, bem como as negativas, que também ocorrem, não só do branco para o negro, mas também, do negro para o branco. E as
cotas (que obviamente devem ser de caráter temporário, isto está
claro) visam colocar,
literalmente, o negro, o indígena ou o pardo, em locais onde,
geralmente, ele não se encontra. Visa
proporcionar ao não-negro
o
esbarrar-se com
este tipo que ele somente se deparava via TV ou jornais, propiciando
assim uma convivência que prime por aquilo que ambos tem em comum: a
humanidade.
O
princípio da isonomia (principal argumentação daqueles que são
contra as cotas raciais) infelizmente, ainda que constitucional, é
fraquíssimo diante esta realidade metafísica dos conceitos que
influem decisivamente nas pré-conceitualizações e, sobretudo, no
modo como os estigmatizados se vêem no mundo. Sobre este último
quesito, tamanho é o estigma em cima do negro que muitos – que se
enquadram neste fenótipo – vestem a pesada roupa de chumbo dos
conceitos atribuídos a eles. Tais conceitos dizem ao negro que “aqui
você pode, porém, ali você não pode!” ou
“aqui é o seu lugar, porém, ali não o seu
lugar”.
E como se faz para se despir de tais conceitos? Somente os que dispõem
de uma clarividência muito grande para entender que, no fundo, tudo
é vazio e moldável, porém, isto é uma outra conversa e um
atributo para poucos. Portanto, levando em consideração que a
maioria das pessoas abraçam os estigmas, querer dizer que as
minorias não estão nas universidades pelo fato de não quererem é
um engodo, pois, há esta trava psíquica imposta
pelos conceitos existentes que fazem o negro sentir-se
confortável em um dado local e desconfortável em um outro. Donde
vem este desconforto? Dos olhares pré-conceituosos que, nas
entrelinhas perguntam ao negro graduando em filosofia (por exemplo),
de maneira silenciosa, “o
que é que você está fazendo aqui?”. Se
este negro é altivo, seguro de si (atributos que, infelizmente, não
se compram em supermercado) tais olhares, a ele, nem existem. Mas, se
porventura, trata-se de um negro que abraçou os conceitos vigentes
em sua sociedade acerca de sua raça, ah!, que labor martirizante
será sua estada nos locais e posições sociais onde,
historicamente, a ele, sempre foram designados como não
seus.
Inauguro
com este texto, algo que há muito já estava para fazer, ou seja,
reflexões sobre a condição do negro sob minha ótica, obviamente.
Dedico este texto a meu amigo e parceiro de boas e densas reflexões
Matheus,
detentor do blog David MM.